
A Queeresfera Fílmica ganhou estupendos petardos novos com o desembarque, entre nós, da cineasta Jane Schoenbrun (que nasceu em NYC-US em 1987). Seus OVNIs audiovisuais convidam todos os freaks a empunharem a bandeira de sua esquisitice e balançá-la em praça pública sem vergonha – ou melhor, tremulá-la nas telonas e telinhas do cyber-mundo. Let your freak flag fly!
Em 2026, talvez não tenha sido lançado nenhum filme causador de mais hype dentro de uma certa “subcultura queer” do que o Teenage Death and Sex at Camp Miasma, o terceiro longa desta mulher-trans que antes já havia realizado I Saw The TV Glow: Eu Vi o Brilho da TV (2024) e We’re All Going To The World’s Fair (2021).


Dentro dos filmes há objetos culturais, inventados para causar incômodo e fascinação, ao mesmo tempo cultuados e odiados, que servem para a discussão sobre as perversidades do pop: é o caso dos filmes slasher da fictícia franquia de horror Camp Miasma, ou do seriado também fictício (isto é, inventado para o filme) The Pink Opaque que é a obsessão dos dois protagonistas adolescentes que são afetados de maneiras transtornantes pela TV Glow.


No cerne visceral destes filmes assustadores e engraçados, que nos oferecem uma crítica queer-cult da Pop-Esfera, está a contradição entre o que o pop promete e o que ele de fato “produz” socialmente. Um caústico questionamento crítico sobre os rumos da nossa cultura está escondido nestes filmes crípticos. Em termos mais simples, Jane S. – em sintonia com artistas musicais como Sloppy Jane, que atua na trilha musical de …TV Glow com feat. de Phoebe Bridgers – é uma filmaker que está com a corda toda mandando “bala” pra cima da Indústria do Entretenimento. Esta que está muito longe de ser apenas uma inofensiva setorial da Internacional Capitalista.
A Industry of Fun é mostrada por Schoenbrun como algo repleto de iscas perigosas, de conteúdos tóxicos, potencialmente insanizantes – e assim tudo nos conduz a pensar também sobre a pandemia de transtornos mentais numa perspectiva que põe a referida indústria da diversão… no banco dos réus. Como naquele livro que talvez seja merecedor do prêmio de Obra Com Título Mais Foda Dentre Todos Os Livros Que Nunca Li: Amusing Ourselves To Death, de N. Postman.
Mas como pode algo tão aparentemente bacana, aprazível, coca-cólico como a Cultura Pop produzir uma prole de monstros? Eis uma questão boa para quem quiser uma dúvida assombrosa no frontispício de uma obra que é mais complexa do que parece, e que merece que nos dirijamos a ela com esta problemática em mente. Schoenbrun faz filmes com camadas – na superfície, você está diante de um terrorzão, com muitos elementos do body horror Cronenberguiano ou de Julia Ducorneau, mas nas profundezas o que tá rolando é material para teses de doutorado em cultural studies. É material para revolucionar pra sempre o New Queer Cinema, assim como a incursão fílmica de Paul Beatriz Preciado – Orlando: Minha Biografia Política (2023).

Eu batalho ainda por palavras para tentar explicar como me relaciono com este queer-comentário sobre o “Pop” e o “Mainstream” que se esparrama por estes filmes deliciosamente satânicos. Antes de ir a eles com meu olhar kinokritikador mais detido em detalhes, quero destacar, nesta escrevivência, minha experiência do Nirvana e do Arquivo X. Dois fenômenos que bagunçaram para sempre nossas usuais linhas divisórias entre o alternativo-underground e a corrente central da cultura comercial.
“Aqui estamos nós, entretenha-nos!” – foi berrando esta frase que Kurt Cobain fez sua entrada, via MTV, na fábrica de loucuras da cultura pop. “I’m just stupid and contagious.” O Nirvana é emblema de tanta coisa – do grunge, do suicídio de rock star em seu apogeu, do sonho que terminou de morrer em Seattle… – e pode ser também emblema de algo que Jane Schoenbrun tá querendo nos contar / cantar também sobre como estamos assim, estúpidos e contagiosos/contagiados.
Estamos estúpidos e contagiados pelas perversidades de um mainstream tóxico? Reféns de monstros manufaturados por uma cultura insana? A epidemia de doenças mentais também vem por causa da captura de nossas mentes pelo pesadelo-do-pop? Aceitem ou não a tese a seguir, podem levá-la ao cinema pra ver Camp Miasma e os outros filmes de Jane: o Pop é aquilo que puxou o gatilho que explodiu os miolos do cantor de “Smells Like Teen Spirit”. Exagero? Apenas mais uma frase de efeito? Investiguemos mais a fundo.

Por outro lado, os mesmos nineties fizeram de milhões de aparelhos de TV mundo afora o lócus de um imenso hype televisivo em que também fui capturado: Arquivo X foi uma febre, apesar de filmado na maior friaca norte-americana, e em 1994 a New Yorker criou uma excelente definição para o seriado – scary sexyness – que se aplica perfeitamente a Camp Miasma.
Foi um fenômeno meio grungy, filmado em locações onde Vancouver é dark e sem brilho solar, e foi estruturada por Chris Carter como uma série que combinava camadas similares àquelas que me referi acima. Havia, na superfície, a recorrência de várias formas de Monstro da Semana, antagonistas a serem enfrentados pela aliança entre Mulder (o “místico”, o cara do I want to believe, interpretado por Duchovny) & Scully (a mente científica, lógico-racional, vivida pela Gillian Anderson que brilha mergulhada em sangue e ironia em Camp Miasma).
Por baixo desta camada do Monster of the Week, transcorria a narrativa “mitológica”, uma intrincada Teoria da Conspiração que envolvia o F.B.I. e as mais altas instâncias do governo dos EUA numa campanha secreta para esconder do público toda uma série de fenômenos paranormais e inexplicados, reunidos nos ultra-secretos X-Files, vasto campo de incógnitas, com os poderes sinistros ocupados também em não deixar ninguém saber do fato de que existe vida alienígena já em multifacetada interação com os humanos terráqueos e sobretudo com o Deep State Yankee. Pergunto aos psicólogos: uma imersão demasiado crédula de um sujeito nas temporadas de Arquivo X poderia produzir sintomas paranóides ou de depressão dos quais a série poderia ser descrita como gatilho motivador?
É a mesma estrutura de Monstro da Semana e Mitologia que estará na estrutura da série-dentro-do-filme que é de primeira importância em I Saw The TV Glow. Ou seja, Schoenbrun está debatendo os impactos sociais destes shows e franquias que conquistam platéias entusiásticas, criando certos nichos de fãs que consomem fanfic e spinoffs, que leem guias-de-episódios e discutem em fóruns on-line sobre sua série predileta. O que isso tá fazendo de nossas mentes? Maratonar Game of Thrones ou Lost faz o que de nossos cérebros?

As maneiras em que o cinema nos deforma e nos conforma são muitas. Para pensar sobre esse tema nada melhor do que pegar carona numa das obsessões de Jane: o fato de que muitos de nós, em tenra e ingênua idade, tivemos acesso a conteúdos não recomendados para nossa faixa etária. Daí é uma série de perguntas legítimas: será que fiquei estranho assim, xarope desse jeito, all fucked up in the head like this, por conta disso que assisti sem que tivesse a maturidade para bem assimilá-lo?
Fui um adolescente que introduziu-se no mundo dos games jogando Doom, Duke Nukem e GTA em sua primeira e tosca versão. Entrei no cinema com meus amigos para assistir Pânico de Wes Craven quando não tínhamos idade para estar ali. Espiei uma mulher completamente nua dentro das páginas de uma Playboy através de um contrabando de um menino mais velho queque descolou para nós, aquele bando de pivetes taradinhos, a edição com Adriana Galisteu na capa e no recheio. Chega de exemplos pois já estou pagando muito mico.
Mas o fato é que o cinema de Schoenbrun parte com frequência desta vivência: o garoto Owen, em I Saw The TV Glow, quer muito assistir a The Pink Opaque, que os adolescentes mais velhos já estão fissurados em assistir, mas… papai e mamãe não deixam, pois afinal de contas a sua hora de dormir é 22h, e a série passa todas as sextas às 22h30. A amizade entre Owen, um rapaz tímido, inseguro, filho de um casamento inter-racial, mulato de mãe negra e pai branco, aproxima-se de Maddy, sua colega de escola um par de anos mais velha, motivado pelo interesse de saber mais sobre o programa que ele só conhece pelo comercial.
Bem, assim como em Camp Miasma também se tematiza o impacto de ver os filmes proibidões – de terror, pornô etc. – antes da idade devida, isto está no cerne da bagunça ontológica fudida que se gera na mente de Owen e Maddy diante de um consumo excessivo e de uma credulidade abissal diante do enredo televisivo. O vilão de The Pink Opaque é o Mr. Melancholy, ou Senhor Melancolia, que é a cara da Lua de Mèlies, e ele ameaça a juventude… com a depressão sem cura.
O bandidão impiedoso Mr. Melancolia ameaça tragar o pessoal teen pro Midnight Realm, o Reino da Meia Noite, onde você sufoca, é enterrado vivo, tem seu coração arrancado do tórax etc. Mas as heroínas, Isabel e Tara, que se comunicam de maneira paranormal através do Psychic Plane, tem um plano para barrar a vilania de Mr. Melancholy que quer ver toda a juventude num surto de suicídio motivado por confusão total e depressão incurável. Só que… fudeu, no fim da quinta temporada, ó tragédia, a série é cancelada… e sem nenhum happy end! Puta merda!

Aqui voltamos a encontrar a teoria-das-camadas: superficialmente, o que tá rolando aqui é uma quase-comédia, um comentário sarcástico sobre adolescentes que adoram suas séries prediletas mas começam a odiar terrivelmente quando elas cessam de ser produzidas ou quando são levadas a um final que não era o esperado. A decepção de Maddy é tão extrema que ela bota fogo em sua televisão e foge da cidade. Fica uma década desaparecida. Caramba, a ninfeta leva mesmo a sério os descaminhos de sua série predileta, começa a perder a noção sobre o que é o real e o que é a ficção, e mete-se down the rabbit hole numa insana campanha que tritura seu ego e sua sanidade em busca de tornar-se a protagonista da Sexta Tempora de The Pink Opaque. A reboque, Owen também vai endoidecendo, até acabar piradinho dentro de seu trabalho no Fun Center…
Mas há algo mais sério por trás desta caçoada, deste riso satânico de Schoenbrun – há uma empatia angustiada com aqueles que perdem sua sanidade no Mundo-Tela. É sintomático, portanto, que o primeiro filme dela é um estranho documentário só com found footage da WWW, o A Self-induced hallucination, e que ela acaba de lançar também sua carreira literária com o romance Public Acess Afterworld, de modo que há densidade suficiente nesta carreira artística para demandar uma interlocução com as obras de pensadores como Paula Sibilia, Letícia Cesarino ou Mark Fisher:

Com todo esse Labirinto da Psiquê presa nas Armadilhas do Pop em mente podemos enfim adentrar mais fundo em Acampamento Miasma. Este filme deliciosamente subversivo, cult pra cacete mas muito agradável de assistir, e com tantas camadas de ironia e sarcasmo que nem sei por onde começar. Ou melhor, sei sim – do começo, dos créditos iniciais, um engraçadíssimo tratado sobre a proliferação de uma praga pop. Gillian Anderson encarna no telão algo muito distante da frieza ultra-racionalista de Dana Scully – uma velha atriz, que estrelou o primeiro filme do Camp Miasma, frequentemente comparada com a heroína decaída de Sunset Boulevard – Crepúsculo dos Deuses. Mas sem a solenidade. Sem a pompa.
Camp Miasma é irônico até o tutano: a “única pessoa que não é assassinada”, a mocinha que escapa do delírio homicida em série de Freddie Krueger, Michael Myers, Jason ou do mascaradão do Pânico, a que fica viva para contar a estória, é sobre esta personagem que Schoenbrun derrama seu sarcasmo. A cineasta projeta-se no seu alter-ego, na cineasta queer contratada pela indústria do cinema para tirar a franquia da fossa em que se meteu após uma sequência catastrófica de sequências flopadas. Tenho certeza que algum intelectual mais capacitado que eu será capaz de ler Left Is Not Woke de Susan Neiman, que quero ler mas ainda estou devendo, e refletir sobre a “Cultura Woke” em Camp Miasma. Pois o fato de que uma pessoa queer, uma mulher lésbica, uma jovem meio freak na Industry of Film, seja chamada para tirar do lodaçal o Camp Miasma já é um sinal de que as corporações responsáveis pelo audiovisual massivamente vendável estão se rendendo ao potencial comercial do woke.

O que me incomoda no atual alvoroço de debate público sobre o “woke” é que o termo tem diferentes significados conforme o campo político de onde sai, na boca da extrema-direita e da alt-right, é uma ofensa cheia de escárnio diante de pautas julgadas “esquerdistas”, minorias exigindo direitos, como feministas no #MeToo e o Black Lives Matter, aplicável também ao Daisy Chains Fields que Olivia promoveu e aos arroubos ecologistas de Greta T. e do FridaysForFuture. Mas “woke” é um termo que, ressoando no blues dos escravizados, na voz de um Leadbelly, pode soar também como muito próximo de awake, acordado, desperto, aceso.
Camp Miasma captura muito bem esta ambiguidade e nos entrega um “vilão” muito mais interessante que a média, também, A Pequena Morte que é o apelido francês para o orgasmo – la petite morte. Esta expressão francesa para o orgasmo sugere um emaranhamento de Eros e Tânatos, de Afrodite e Ares, que também explica a força perturbadora de Camp Miasma. Pergunto ao Google Gemini o que é o orgasmo enquanto pequena morte e ele me fala da “sensação de breve perda da consciência ou êxtase intenso que o acompanha”.
Bem, o vilão aqui, para além de produzir matanças aparentemente aleatórias, ou seja, fazer o que fazem os vilões slasher e sair matando geral, feito um açougueiro em transe psicopata, é também a encarnação de uma “preocupação cultural” que Schoenbrun parece mobilizar. Qual seja… os orgasmos, talvez adjetiváveis como perversos, que sentimos diante de imagens da morte violenta, do sangue jorrando.
Freud chamava as crianças humanas de “perversos polimorfos”. Mas e se for verdade que nós nunca superamos inteiramente a infância? Isso significaria que os adultos são perversos polimorfos desde a infância, só aprenderam, ao adultecer, a vestir uma máscara civilizada. Mas a vilania ao nosso redor e dentro de nós arranca as máscaras, entrega-nos ao âmbito da violência explícita, jorrando nas mídias, e nós a consumindo, numa sinistra orgia de hiperviolência high-tech em fluxo contínuo em nossas teletelas.
La Petite Morte… Little Death… o filme faz graça com ele, tenta construí-lo como fictício, figment of the imagination, só um Belzebuzinho sem realidade concreta e preso dentro de um filme, mas ao mesmo tempo há uma camada mais densa, e este vilão só poderia ter sido criado por uma pessoa trans, queer, devoradora do que o pop tem de mais perverso e que agora está aqui cuspindo tudo de volta, regurgitado, em cima de vocês, e com que estilo!
A pessoa queer, vítima de homofobia, alvo de violências verbais e bullyings, que acaba morrendo afogada e cujo corpo vai parar no fundo do lado, eis uma das chaves para entender a “gênese do monstro”, como Little Death veio a ser. Trata-se um monstro meio Lynchiano, meio Cronenberguiano.
É uma figura cujo rosto quadrado, cuja cabeça-cubo, pode nos lembrar do aparelho de TV 📺 de antigamente. Aliás, o cinema de Schoenbrun é muito na vibe de Videodrome, do cineasta canadense, e faz-nos vibrar de terríficos prazeres diante da captura pelo maquínico em que estamos soterrados.
De todo modo, não é uma cabeça carnal, nem mesmo parece conter um cérebro, trata-se de uma head de ferro ou alumínio, algo remetendo ao inaminado, ao metal transformado pela ação humana para criar de eletrodomésticos a PCs, de aparelhos de ar condicionado a tubos para circulação de ar entre recintos.

Neste imbróglio todo, o amor entre as mulheres protagonistas, rompendo todas as cercas, da diferença de idade, da barreira do mesmo-gênero (assignet at birth), o que faz de Camp Miasma um dos filmes lésbicos mais exuberantes já feitos. Hannah Einbinder e Gillian Anderson atuam maravilhosamente soltas, banham-se no sarcasmo que este roteiro tem de sobra, e terminam encharcadinhas de sangue na grocery store após terem deixado toda a equipe pro-woke que estava por trás do remake de Camp Miasma largados, cadáveres, enquanto seguem em frente. Que emblema de nossa insanidade cultural. Que satânico sarcasmo. Que riso insolente. Que cineasta “eles são” estes “Schoenbruns”!
Termino comentando esta mania de chamar-se de “eles” que faz até mesmo do verbete na Wikipédia de Schoebrun uma experiência queer pra caraca. A pessoa não quer que refiram a “ela”, mulher trans, mas sim a “they/them”. Coloca-se assim o desafio de olhar para uma pessoa como multiplicidade. Lembra-me do poema de Whitman: “eu contenho multitudes”. Sentir-se não apenas dinâmico, metamórfico, camaleônico, mas também alguém embarcado numa existência que parece elevar a transição a estado permanente, é talvez a vivência corriqueira da pessoa queer.
Contradizer a si mesmo, ser outro em relação ao eu do passado, é banal para quem é queer e aprendeu a ver como estranho também seus antigos eus, suas passadas configurações psiquico-corporais. Whitman escreve: “Eu me contradigo? / Pois bem, então eu me contradigo, / Sou vasto, contenho multitudes.” Mas a grande sacar do they/them aplicado a Schoenbrun é que surgem ideias curiosamente mescladoras do artista individual com o coletivo do qual ele à sua maneira integra e participa: eles fizeram, Jane Schoenbrun mas também o Povo Queer, um Cinema aterrador e estarrecedor para todos nós, perdidos nos labirintos de um pop que lucra com nossas multiformes perversões.

LEIA MAIS:
VULTURE https://www.vulture.com/article/jane-schoenbrun-on-what-comes-after-camp-miasma.html
ROLLING STONE https://rollingstone.com.br/cinema/queremos-ajudar-as-pessoas-a-terem-bom-sexo-como-jane-schoenbrun-virou-o-slasher-do-avesso/
Publicado em: 29/09/26
De autoria: Eduardo Carli de Moraes educarlidemoraes
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